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December 28, 2016 - 06:04

'Um dia, pai, nos encontramos de novo. Um beijo do seu filho'

Xandu

Foto: Arquivo Pessoal

Contador de histórias, o repórter Xandu Alves hoje pede sua atenção para contar a dele. Ele narra a perda do pai, o seu Chico, neste Natal. E mostra que não há nada mais universal do que o nosso universo singular

Xandu Alves
Reportagem Especial

Nada é mais universal do que a história de cada um. Hoje, fugirei da pauta cotidiana. Vou escrever sobre a vida. A minha vida, que tem a ver com a sua, com a de todos nós. Falarei da vida que tive ao lado do meu pai, Francisco de Assis, o seu Chico, vencido pelo câncer no domingo de Natal. Morreu numa cama de hospital lutando pela vida.

Convivi com ele ao longo de 44 anos. Na infância, ele era meu herói. Adorava a alegria dele ao ouvir, num velho e gasto radinho de pilhas, os gols do seu amado Corinthians, uma paixão que herdei. Meu pai berrava a cada lance perdido, e mais ainda quando as redes balançavam.

Não à toa, sonhei em ser jogador de futebol querendo ser aquela fonte de alegria para ele. Imaginava fazendo os gols que ele celebraria ouvindo o radinho. Não deu.

O futebol passou e chegaram os anos de rebeldia, da juventude, quando descobri o rock e o pai vai ficando para escanteio. Toquei em várias bandas e ele até gostava, mas a turma aos poucos toma o lugar da família. Nós éramos tolos e nem sabíamos.

Meu pai nunca cobrou nada, o que facilitava a relação minha com ele e dele com os meus amigos, que passavam a curti-lo. Era um cara festeiro, alegre e sempre disponível a ajudar. Foi assim a vida inteira. Acordava de madrugada para socorrer parentes ou amigos. Nunca reclamava.

Aprendi com ele a sempre pensar no outro, naquele que nada tem, a valorizar as oportunidades, a superar as perdas e a nunca desperdiçar.  Seja água, comida ou a vida. Seu Chico e dona Maria Helena, minha mãe, ensinaram a mim e também aos meus dois irmãos a olhar a vida de cabeça erguida. É para o mundo que nascemos, diziam.

Formei-me em jornalismo, trabalhei muito, me casei e tornei-me pai de um casal de filhos. Passei a entender todas as vezes que meu pai pegava no meu pé. As broncas, cobranças e os avisos.  Nada como olhar a vida em perspectiva. Um pai entende melhor o outro.

O tempo passou, a saúde do meu velho começou a apresentar a conta de tanta batalha --ele chegou a ter três empregos para nos sustentar--, alguns exageros e a falta de prevenção. Descobriu tardiamente que precisava se exercitar. Diabetes, problemas cardíacos e depois o câncer. Enfrentou cada um deles sem reclamar ou se fazer de vítima. Dizia estar pronto para a próxima luta. Mas na última delas o adversário venceu.

Minha mãe estava ao seu lado no momento do adeus. Eu estivera com ele na véspera. As últimas palavras que ouvi dele foram: “Estou mal”. Ele não conseguia falar, tamanha a fraqueza do corpo. Preferi não alongar a conversa. Arrependo-me de não ter dito que o amava.

Mas ele sabia. Como sempre soube que um dia iria embora e deixaria saudades. Tudo o que fez na vida deixará saudades. Fazer o quê.  Marcou tanta gente que não dá para esquecer.  Eu ainda vou me pegar chorando sozinho algumas vezes, quando ouvir uma canção de Raul Seixas, que ele amava, ou olhar o céu azul de um domingo qualquer, o mesmo de quando partiu. Deus sabe o que faz.

Um dia desses, meu pai, nos reencontraremos. Eu não sei quando e nem como. Deixo a surpresa para você. Surpreenda-me. Beijos do seu filho, Xandu.

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