São José dos Campos
20º / 26º
No decorrer do dia o dia terá com variação de nebulosidade na região.
Home
March 22, 2014 - 11:04

Enrevista com Thelma Krug

Confira a íntegra da entrevista

São José dos Campos

Como a senhora explica para o público leigo as recentes alterações no clima do planeta?
Esta questão não é só para leigos não, é uma grande pergunta para os cientistas também. O que aconteceu no Hemisfério Norte nas três últimas décadas? Sucessivamente, foram as três décadas mais quentes dos últimos 1.400 anos. Por outro lado, no caso do Brasil, janeiro foi um mês atipicamente quente em quase todo o país.

O clima mexe com a vida das pessoas...
Ele mexe com tudo. Mexe com a agricultura, com a energia... O problema é que sempre existiram as variabilidades naturais. Não se deve esperar ter todo ano aquela mesma condição climática que se teve no ano passado. Ou seja, você pode esperar variações de temperatura, variações de precipitação, sem que necessariamente isso esteja relacionado a uma mudança do clima. A questão é que hoje nós temos uma conjugação de alterações climáticas naturais, mais uma componente de mudança do clima que hoje é inequívoca.

As duas situações estão acontecendo ao mesmo tempo?

A natural aconteceria de qualquer jeito. E a do clima, se a gente olhar principalmente nos últimos 50, 60 anos, tivemos um aumento de temperatura global, no mundo inteiro, da ordem de 0,6 a 0,7 grau centígrado.

A velocidade de 0,7 grau em 50 a 60 anos é uma coisa tão brutal?
É uma coisa absurda, uma coisa que nunca foi observada. Então esse aquecimento é inequívoco, ou seja, hoje os cientistas são bastante categóricos nisso. Quando a gente fala em mudança do clima, estamos falando de uma coisa que veio para ficar. É uma coisa que não se pode observar em um pequeno período de tempo. Você tem que ter uma longa série histórica e aí começa a ver uma mudança na tendência dessa série histórica.

Nestes últimos 20 a 30 anos estamos vendo isso com mais intensidade...
Nós estamos sentindo essa elevação, isso é global. Alguns países estão sentindo mais, outros menos. Existem impactos diferentes, efeitos diferentes da mudança do clima em diferentes locais. Mesmo dentro do Brasil, a expectativa que nós temos é que diferentes partes do país sofrerão de formas diferenciadas. Tanto em questão de temperatura média como em questão de precipitação média.

A senhora diz que o primeiro componente é essa variação natural, contra essa não se faz nada...
Contra essa não dá para fazer nada.

Agora, o segundo componente é a ação do homem...
O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] foi muito mais contundente no relatório que saiu no ano passado, dizendo que a influência humana foi um dos fatores dominantes para o aquecimento do planeta nos últimos anos.

Essa influência se dá devido a quais ações humanas?

Principalmente devido à queima de combustível fóssil. O desmatamento dá uma contribuição muito pequena. Juntando desmatamento e agricultura, dá uns 30% de contribuição. Com a redução do desmatamento no Brasil, esses números já podem ser sentidos no próprio relatório do IPCC. Já há uma diminuição nas emissões de uso da terra. Acho isso muito interessante, porque mostra de uma maneira muito concreta a importância que tem o desmatamento no Brasil. Ou seja, deixou de ser o fator mais importante. Ele contribuía muito com as nossas emissões, algo em torno de 75% das emissões brasileiras eram por causa do desmatamento. E o restante por combustível fóssil. Processos industriais, um pouco de agricultura... E hoje o desmatamento passou a ter um papel secundário...

O que nós podemos esperar para os próximos 10, 20, 30 anos? E o que deve surpreender mais as pessoas em termos de fenômenos climáticos?
Quando estamos falando desses diferentes modelos que o IPCC roda, você tem diferentes cenários. Por exemplo, o cenário a que os negociadores na convenção do clima tentam chegar, é um cenário onde o aumento da temperatura média de superfície não excederia a 1 grau centígrado, 1,5 grau.

E o pior cenário, qual é?
É bem complicado. É um cenário onde se tem, em média, algo em torno de 3,6 a 5,3 graus de aumento de temperatura. Isso vai causar impactos enormes. Tem uma componente interessante que é o oceano. O oceano tem um papel de tirar parte do CO2 da atmosfera, que é o gás de efeito estufa mais abundante que nós temos. Cerca de 25% das emissões voltam para o oceano, ao oceano profundo, que nós chamamos de “o grande sequestrador” de CO2. Com o aquecimento, vai diminuir a capacidade dos oceanos absorverem CO2, vamos ter impactos na circulação oceânica, nas chuvas, em tudo.

Para nós leigos entendermos, vai chover mais, vai esfriar mais, o mar vai invadir terras secas?
Tudo vai depender do cenário. Ou seja, em um cenário otimista vamos ter algumas dessas coisas, mais dias quentes, menos dias frios, isso é esperado com a mudança do clima.

No cenário mais drástico, a vida humana sofreria que tipo de consequências?

Todos os tipos de impactos possíveis. E também de formas diferenciadas. Por exemplo, as pequenas ilhas, já com 1,5 grau centígrado, vão deixar de existir, algumas ilhas serão cobertas pela elevação do mar.

Essas consequências podem ser refreadas?

Esta que já está comprometida, não. Independentemente de eu parar tudo hoje, ainda vai haver um aquecimento. Não muito pronunciado, mas existirá em função de emissões que já aconteceram. Para 1,5 grau você já vai ter países que vão perder inclusive a soberania.

Em que sentido?
O território deles vai desaparecer. Como medida de adaptação, já se pensa em migrações desses povos.

Aquele clima de quando nós éramos crianças, de que a gente sente saudades, isso não volta?
Existe a irreversibilidade. Reverter esse quadro de aumento que já vem sendo observado desde 1880, com o início da Revolução Industrial, não dá.

O que a senhora sustenta é que o efeito estufa é real e é o grande problema?
É o grande problema. É clara essa associação entre as emissões depois da era industrial. Se você pegar um modelo para projetar tudo o que está acontecendo em termos de temperatura ao longo dos últimos 200 anos, se pegar um modelo que só contemple variabilidade natural, não consegue explicar o que está acontecendo agora. Ele se explica na hora em que você adiciona ao seu modelo a componente antrópica, a ação do ser humano.

A redução das emissões por desmatamento é muito positiva para o país, certo?
É positiva porque é preciso considerar a credibilidade que foi construída ao longo de vários anos para isso. Recentemente, em dezembro, nós estávamos na Convenção do Clima e saiu uma publicação interessante. Falava muito bem do Brasil, principalmente ao confirmar que os dados da redução do desmatamento no Brasil eram reais. E estavam todos lendo. Isso causou um frisson. Todos muito interessados com os dados do Brasil, destacando o fato de termos criado um mecanismo para refrear as nossas emissões.

Então hoje, nesta área, o Brasil está bem “na fita”?

[risos] Com relação às emissões, com esta queda muito significativa do desmatamento, o Brasil não pode ser considerado o vilão dessa história. A questão das hidrelétricas também contribuiu para o ambiente, a questão dos biocombustíveis. O país tem, mesmo na área da agricultura, muitas áreas de mitigação que alguns países só estão trabalhando agora, mas o Brasil já está doutorado nessas áreas.

Faz o dever de casa...
Faz o dever de casa até por uma questão de economia. Se você pegar um empresário, uma pessoa que trabalha na área de agronegócio, é claro que ele vai fazer o que for preciso para diminuir o seu custo. E algumas dessas ações, indiretamente, estão também reduzindo as emissões.

Como ficará a questão da água?
A água é uma preocupação, os mares são uma preocupação enorme. O aquecimento dos mares é enorme, até porque se questiona se ele continuará com a capacidade de puxar os 25% de CO2 caso se aqueça mais. Não se acredita que esse papel tão importante de o mar retirar o CO2 vai continuar nessa mesma taxa. Então o problema é que a emissão diminui aqui, mas o mar não está tirando, então o CO2 vai ficar na atmosfera. Vai ser preciso um esforço muito maior para compensar o que o mar não está contribuindo mais. Então existe uma preocupação com a manutenção do papel que os oceanos vêm tendo como sequestradores de CO2, assim como fazem as árvores. Mas elas não sequestram, do dia para a noite podem perder este papel em função de uma queimada, de uma peste...

O pré-sal teria um potencial agressivo para o ambiente?

A gente está tentando refrear as emissões fósseis e aí vem um pré-sal. Mas o que se tem falado muito – e a Petrobras tem investido também – é nas pesquisas de CCS, que é a tecnologia de captar e armazenar o CO2. O Brasil já está fazendo estudo nessa área.

O que a senhora espera que as pessoas façam em suas casas para um comportamento ambientalmente adequado?

São muitas coisas. Na verdade eu vivo um conflito interno. O que eu queria mesmo é que a gente pudesse ter formas de transporte alternativo. O ideal seria nós termos um transporte de massa decente e ter segurança. Preciso descer desse transporte e chegar em minha casa com tranquilidade. Se a gente conseguisse equacionar esses dois problemas no Brasil, já seria uma grande contribuição que o Brasil daria na questão ambiental. Outros países conseguiram resolver essa situação de maneira harmoniosa. Em algum ponto no tempo nós teremos que começar a não estimular as pessoas a comprar mais carros e investir em soluções.

Qual é o grande mito que o cidadão comum alimenta em relação aos efeitos do clima no futuro?

O grande mito é achar que vai ser catastrófico. Isso é que eu não gosto, essa idéia de pegarem o modelo que mais penaliza o planeta. Eu não consigo ver o mundo desta forma. Acho que o ser humano é inteligente o suficiente para mudar o destino dramático que alguns estão dizendo que nós vamos ter.

Como foi a sua opção pela carreira? Qual é a sua formação?

A minha formação é em matemática e tenho doutorado em estatística espacial. Para entrar na área ambiental, acho que tive muita sorte. Quando voltei do meu doutorado fui convidada para coordenar a área de observação da Terra e sensoriamento remoto. Estudei muito, muito. Fui a primeira mulher a assumir um cargo de chefia no Inpe. Quem me deu essa oportunidade foi o antigo diretor Márcio Barbosa. E ele também me deu missões como ir a Brasília falar sobre desmatamento, falar com o ministro da época. Ele me deu espaço e me envolvi muito. Acabei indo para Brasília, no Ministério da Ciência e Tecnologia, fiquei lá com o doutor Gilvan Meira Filho, cientista renomado na área de clima, que foi meu mentor, depois voltei ao Inpe. Um dia fui convidada pela ministra Marina Silva para dirigir a Secretaria de Mudança de Clima e Qualidade Ambiental.

Hoje a senhora respira clima...

Diria que respiro negociação. Negociação, dentro das Nações Unidas, é um processo muito complicado, é tentar o consenso com mais de 200 países sobre os temas mais diversos. Ali não se trabalha com dissidências. E o consenso leva anos. Nós temos, por exemplo, uma negociação que está em curso desde 2005 e que só foi fechada em dezembro do ano passado.

A senhora se sente muito influente no destino da humanidade?

Eu não me sinto. Mas as pessoas que me cercam, principalmente nas negociações, dizem isso constantemente. Fico contente quando ouço da minha neta, por exemplo, “Vó, é importante o que você faz, né? Fui na internet e vi seu nome muitas vezes...” Essas coisas são o retorno daquilo que a gente faz.
 

Publicidade
Publicidade
Publicidade  
Publicidade
Publicidade
Publicidade