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November 16, 2014 - 00:30

Ditadura vigiou lideranças do Movimento Negro de São José

João Bosco e Albina da Silva, presidente do Movimento Negro de São José. Foto: Claudio Vieira

João Bosco e Albina da Silva, presidente do Movimento Negro de São José. Foto: Claudio Vieira

Com mais de 50 páginas, relatório confidencial revela que militantes negros eram considerados subversivos

Xandu Alves
São José dos Campos

Era noite quando um carro parou em frente de uma república no Jardim Renata, na região central de São José. Dois homens saltaram e tocaram a campainha. O então vereador João Bosco da Silva tomava banho e precisou vestir um roupão para atender a porta.
“Não conhecia nenhum deles”, disse ele, que suspeitou da insistência de ambos em fazê-lo entrar no carro. “Quando um tentou ficar entre mim e a porta, percebi a intenção”.
João Bosco fez menção de entrar e foi bloqueado por um dos homens, enquanto o outro usou um objeto pontiagudo para ferir o vereador. Ele gritou por socorro e um vizinho acendeu a luz da casa ao lado e abriu a janela, desviando a atenção dos homens. Bosco aproveitou para fugir.
“Só parei em uma padaria da Vila Ema, que estava com a porta dos fundos abertas. Falei com os padeiros e liguei para amigos.”
Militante do movimento negro e vereador de oposição ao governo militar pelo MDB, João Bosco escapou por pouco de um sequestro em plena ditadura. Admite que poderia ter sido preso ou torturado, ou ainda sumido sem vestígios, como diversos militantes políticos da resistência ao regime de exceção.
Bosco não conseguiu identificar os homens e só entendeu a razão daquela tentativa de sequestro recentemente, quando teve acesso a documentos confidenciais dos arquivos da Ditadura Militar, que comandou o Brasil entre 1964 e 1985.
Ele e outros engajados no Movimento Negro de São José foram vigiados pelos órgãos de repressão e tiveram ações e atividades relatadas em documentos confidenciais, agora abertos pelo governo federal.
As mais de 50 páginas de relatórios obtidos pelo ex-vereador (veja trechos no quadro ao lado), que coordenou a campanha à reeleição de Dilma Rousseff (PT) na região e foi secretário de Esportes do governo Carlinhos Almeida (PT), dão um panorama de como os militares temiam que a organização dos militantes negros arregimentasse jovens nas periferias da cidade.

Subversivos. “Éramos considerados subversivos”, disse Albina da Silva, 72 anos, presidente do Movimento Negro de São José no início dos anos 1980. “Sabíamos que a ditadura nos vigiava, existia um temor, mas lutávamos pelos direitos dos negros e pela nossa cidadania”.
João Bosco foi especialmente vigiado pela ditadura por ter sido um dos fundadores da Frenapo (Frente Negra para Ação Política de Oposição), além de ter participado do movimento pela anistia, de sindicatos e de organizações de luta pelo direito dos negros.
Segundo ele, ao ler os documentos agora, “caiu a ficha” de quanto os militantes estiveram pertos de sofrerem algum tipo de violência. “Não tínhamos noção, naquela época, que o regime via uma ameaça no nosso movimento”, afirma. “Mas os relatórios mostram que a ditadura via um conteúdo subversivo em nossas ações.”

Vitória. Para Ilma Aparecida Silva, outra presidente do movimento negro em São José, a militância e os riscos valeram a pena para conquistar a democracia. “A vitória foi derrotar o regime militar e ver o país voltar à democracia.”

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Negros são heróis da luta contra o regime militar de 64
São José dos Campos

O movimento negro contribuiu, até com sangue, para a resistência e vitória contra a ditadura militar no Brasil.
Além de Oswaldão (leia texto ao lado), que morreu na Guerrilha do Araguaia, outros negros entraram para a história do combate à ditadura.
“Cada vez que há um endurecimento, um fechamento político, o negro é atingido diretamente porque todas as suas reivindicações particulares, a exposição de suas ânsias, a valorização de sua história, desde que não sejam feitas segundo os ditames oficiais, cheiram à contestação subversiva”, diz o jornalista Haroldo Costa, no livro “Fala Crioulo”.

Santo Dias. Um dos militantes negros símbolo da luta contra a ditadura foi Santo Dias da Silva (1942-1979).
Trabalhador de uma fábrica em São Paulo, ele se envolveu com greve dos metalúrgicos, em 1979, e foi alvejado nas costas por um policial, quando negociava a libertação de presos. Até hoje é lembrado por sua militância.
A Assembleia Legislativa de São Paulo criou o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, na 18ª edição em 2014.


SNI avisou para risco de subversivo
Documento do SNI (Serviço Nacional de Informações) datado de 15 de setembro de 1982 avalia o Vale do Paraíba antes de uma visita do então presidente João Figueiredo. Além dos aspectos econômicos e sociais, o relatório aponta João Bosco da Silva, militante do movimento negro, como “elemento contra-indicado para contactar o presidente”.


Guerrilheiro negro morreu no Araguaia
Um dos marcos do movimento negro contra a ditadura é Osvaldo Orlando da Costa, o Oswaldão, um dos 69 guerrilheiros que morreram na Guerrilha do Araguaia (1967-1975). Com quase 2 metros de altura, ele era boxeador e tenente do Exército e teria comandando um dos dois batalhões. Na selva, diziam que podia virar bicho para enfrentar o inimigo.

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